sábado, 13 de março de 2010

O PARADIGMA PERDIDO

Eu adoro Penafiel. Tenho pela minha terra uma estima natural de quem cá nasceu, vive e trabalha. Logo sou um penafidelense de trazer por cá.
Adoro Penafiel. Tanto, que passo a vida a falar dela. A maior parte das vezes mal (bem). De facto não faço outra vida. Gosto de olhar para ela e ver como anda vestida. Se bem se mal.
Tenho uma cumplicidade com a minha terra, que me leva estar sempre a par do que se vai fazendo, ou desfazendo. Aquilo que eu faço não é uma crítica. Aquilo que eu faço, é um direito que eu tenho, que é ver e falar dela, dessa senhora que comemorou ainda há dias, 240 anos de cidade.
Para quem gosta desta terra, para os mais atentos, o problema que aqui quero falar é recorrente, já é mais que conhecido, só que de vez em quando é bom voltar o filme atrás. É um filme mais preto que branco, por causa da cor verde ou a da falta dela. É uma história com alguns anos, três ou quatro décadas. Foi talvez nos anos setenta que a tragédia começou.
Todos se lembram da destruição da antiga praça do mercado, que tinha no seu interior frondosas árvores. O poder político começava a dar um ar da sua (des)graça. Não interessa lembrar quem, ou que partido estava a governar Penafiel. O que interessa é não esquecer.
E o que é que ali está hoje? Um monumento em homenagem ao mau gosto que adulterou irremediavelmente a paisagem da nossa cidade. Ei-lo ali hirto, o maior mamarracho que se edificou no concelho!
Ainda na mesma zona, todos se lembram de se ter destruído o belíssimo e largo separador central, atapetado com calçada à portuguesa numa zona da cidade onde está situado o “centro comercial ao ar livre”. Todos se lembram de, com isso ter desaparecido a mais belo friso de árvores que ali existia, que mostrava Penafiel num quadro naturalista, à boa maneira de um Malhoa, Pousão ou Sousa Pinto. Destruiu-se tudo.
Hoje o que é que temos, nas avenidas Sacadura Cabral e Egas Moniz? Temos uma acanhada divisória central, debruada com umas miniaturas arbústicas, que veio retirar toda a beleza paisagística àquele local. As invasões francesas não aconteceram nessa altura, mas que foi tudo pró “maneta”, lá isso foi.
Hoje, este nosso velho burgo, para se modernizar, adoptou o único processo modernizador conhecido em algumas cidades e vilas portuguesas. Esse processo consiste em destruir o que está feito e reconstruir via granito e betão, edifícios, ruas, passeios esquecendo, ignorando de todo a cor verde
que pode ser proporcionada por árvores. É isso que se está a esquecer em Penafiel. É disso que Penafiel se tem despido. Toda a gente sabe, o quanto é agradável à vista a existência de manchas verdes nas cidades. Não é só nos parques da cidade, não é só nos jardins que a verdura deve imperar. É no granito, no betão, no cimento, na pedra que o verde deve aparecer, até para cortar o cinza que dali transparece.
Não concebo esta cidade sem grandes troncos e copas guedelhudas. Sinto mais que se derruba uma árvore do que se destrua um monumento de outra espécie. Pedras, só pedras, sem a doçura de uma mancha verde, só servem para cansar a vista. Penafiel sem árvores é uma velha com o caco ao léu. É uma caveira.
O que acontece em Penafiel tem acontecido em quase todas as terras do país. Os grandes reformadores de província reformam, destruindo. Se precisam de construir uma choupana, destroem um palácio. Se lhes falta um jardim, cortam um bosque. Se querem erigir um candeeiro, abatem uma árvore. O lado perigoso da maior parte destes vícios, está na complacência de toda a gente com eles. Se o maioral de uma terra quiser secar o rio que banha essa terra, ninguém lhe impede a obra secativa.
E que entendimento têm hoje das árvores no espaço urbano os novos autarcas do Portugal democrático? É caso para dizer: mudam-se os tempos, ficam as más vontades. Porque, embrulhada num novo discurso, quantas vezes enfeitado com chavões ambientalistas, persiste a vontade de modernizar a régua e esquadro, com sacrifício de todas as árvores que não se encaixem na geometria do projecto. As vilas e cidades de Portugal parecem, cada vez mais, cenários postiços acabados de inaugurar: não há uma árvore que as ligue ao seu passado.
A conclusão é que há um assunto em que toda a nossa classe política - a de ontem e a de hoje, a de esquerda e a de direita, a de todas as cores do arco-íris e de todos os pontos do compasso - está em perfeito acordo. Esse credo unânime foi há tempos brilhantemente sintetizado por um arquitecto e vereador da Câmara do Porto: «Há que acompanhar a evolução natural das coisas. Uma obra não vai deixar de ser erguida por causa de meia dúzia de árvores. Há que ajustar e modernizar”.
Fico com a impressão de que temos de ir em busca doutro paradigma…

Este texto foi publicado na última edição do jornal "Reporter do Marão"

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